Meditar e profetizar

No mês de maio, os cristãos de tradição católica veneram de modo especial a Mãe de Jesus, Maria de Nazaré. É uma oportunidade para meditar um pouco mais os textos evangélicos que a ela fazem menção que, apesar de sucintos, são riquíssimos.

Em duas passagens, o evangelho segundo Lucas afirma que Maria guardava os acontecimentos e meditava-os em seu coração (cf. Lc 2,19.51). Maria não compreendia todas as coisas de imediato, algumas situações a deixavam um tanto desconcertada.

Assim também acontece conosco não raras vezes. Não temos resposta para tudo, principalmente, quando passamos por momentos de crise como este da pandemia.

Guardar no coração e meditar… Não se trata, obviamente, de uma receita mágica, mas, quanta sabedoria nesse gesto. Diante do inédito, devemos exercitar a humildade de contemplar as coisas sem juízo precipitado e sem a pretensão de dar uma resposta absoluta para todas as questões que nos são impostas.

Quando nos detemos sobre um assunto, um acontecimento ou um discurso para realmente meditá-los, sem pressa e preconceitos, as chances de elaborarmos um juízo mais adequado são, sem sombra de dúvidas, mais altas. Esse é um caminho válido até mesmo para superarmos determinados achismos e a praga das fake news, que fazem tão mal à sociedade.

A postura de Maria está longe de legitimar qualquer tentativa de omissão e conformismo. Em um momento oportuno demonstrou, além da sabedoria do silêncio, a sabedoria das palavras certas na hora certa, através do canto do Magnificat (cf. Lc 1,46-55). Trata-se de um canto no qual transborda a gratidão e a alegria, como também o anúncio vigoroso de que Deus está ao lado dos injustiçados, rejeitando uma situação que se verifica em diversos lugares e tempos. É, verdadeiramente, um canto profético. Como faz falta a profecia lúcida e corajosa, fundamentada e cheia de verdade!

Este é, portanto, um dos vários ensinamentos que podemos contemplar no testemunho de Maria, Mãe de Jesus de Nazaré: a profecia nasce de um coração atento à realidade e capaz de meditar com atenção o que se passa ao redor.

Em tempos de pandemia e quarentena, busquemos meditar mais, perceber melhor o que está acontecendo com o mundo e a humanidade para redescobrir o sentido profundo das coisas, que nos desvela o essencial e nos abre o caminho da felicidade, recordando uma vez mais que a misericórdia do Senhor “se estende, de geração em geração” (Lc 1,50).

Pe. Éverton Machado dos Santos, Presbítero da Diocese de São José dos Campos, pároco da Paróquia São João Batista, em Jacareí

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